20.9.09

O Meu Pé de Laranja Lima

O Meu Pé de Laranja Lima
José Mauro de Vasconcelos
(26/02/1920 RJ—25/07/1984 SP)
Editora Melhoramentos 79ª Edição

Livro conta as impressões do autor (Zezé, no livro) com 5 anos de idade. Como encarava a vida e as dificuldades de sua infância pobre em Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro, em uma casa com família numerosa (contei seis irmãos, incluído ele, pai desempregado e mãe sustentando a casa). Li a 79ª edição, comprada em um sebo, cuja capa é idêntica à foto ao lado. Este livro faz parte de sua autobiografia, composta de outros três livros:

· Vamos aquecer o Sol (mudança para Natal);
· O Doidão (adolescência) e
· Confissões do Frei Abóbora (vida adulta).

O livro tem uma linguagem clara, fácil, digerível. Os toques de humor e emoção misturam-se às vezes em uma mesma página, dando a impressão a um terceiro que o leitor é acometido de um grave caso de bipolaridade, pois ri e chora, tamanha mistura de sentimentos e emoções conflitantes que te assaltam com segundos de diferença. O que eu não gostei, mas nem por isso compromete a qualidade da leitura:

· A forma de escrever sem o uso de artigos (isto é para papai ao invés de isto é para o papai e ele é filho de Seu Pedro ao invés de do Seu Pedro). A falta do artigo no discurso chega a irritar, mas releva-se.
· Falta de uma Biografia, prefácio, explicações de orelha ou contra capa, pelo menos na 79ª edição da Melhoramentos. O leitor começa o livro sem saber ao certo do que se trata. É uma autobiografia? É Ficção? É apenas baseado em sua vida ou é um relato fiel? Não tem um resumo e nada que oriente ou previna ao leitor o que ele encontrará nas páginas seguintes.

O livro pode ser lido em duas tardes. Com 190 páginas é uma leitura extremamente agradável, fácil e rápida.

Resumo:

Zezé é um menino muito peralta, ativo e inteligente. Adora aprender palavras novas com seu tio Edmundo. É o encanto de sua irmã Glória de 15 anos, Godóia como ele a chama, gata-russa-de-mal-pêlo como ele, pelo fato de serem os únicos loiros da família. Sua mãe é uma descendente índia dos Pinagés e ele é uma mistura de índio com português.

Muito esperto, o menino aprendeu a ler sozinho aos cinco anos, causando espanto em toda a família e a admiração do seu tio Edmundo. Mais tarde uma de suas irmãs mente a idade dele, para seis anos, só para que ele possa entrar para a escola e assim ficarem livre da peste por algumas horinhas.

Seu irmão Totoca (Antônio) de nove anos o ensina algumas coisas como fazer um balão e atravessar a rodovia Rio-São Paulo. Ao se meter em brigas, Totoca pede para Zezé, mesmo sendo menor, brigar por ele, livrando-se de algumas surras dos moleques maiores. A amizade entre esses dois irmão é tratada mais como um coleguismo, companheirismo, mas não aquela amizade forte, de proteção do irmão mais velho em relação ao menor e nem a clássica admiração do mais novo em relação ao mais velho, a não ser em poucas passagens.

Os laços mais fortes da família são: a relação da Godóia com Gum (como ela chama Zezé em momentos mais afetuosos) que o protege das surras sempre que pode; e de Zezé com o irmão menor Luís - rei Luís, como ele o chama, por seu pai ter posto este nome no caçula em homenagem a algum dos reis Luízes que já existiram. Zezé era protetor, amigo e prometera a Luís que lhe ensinaria tudo quando ele fosse maior e não cobraria nada dele pelos ensinamentos. Zezé age com Luís da mesma forma que ele gostaria que Totoca agisse com ele. Totoca cobrava do Zezé figurinhas ou bolas de gude por alguns ensinamentos.

Toda a família incutiu no menino que ele tinha o diabo no corpo e por isso lhe aconteciam coisas ruins como não ganhar presentes. Diziam que por ele ser mau, o Menino Jesus não gostava dele. Suas traquinagens já causaram o quase parto prematuro de uma gestante, acidentes com vizinhos, um caco de vidro em seu próprio pé, quebra de vidraças, incêndio e um repertório sem fim que lhe rendiam surras, algumas memoráveis, e em raras vezes, só castigos.

Ele tinha um morcego de estimação chamado Luciano e sua casa era iluminada por luz de lampião porque a conta da luz estava atrasada e fora cortada. Como estavam sem pagar também o aluguel, a família mudou-se para a casa nova dois dias após o natal, de carroça. Nesta nova casa ele encontra Minguinho (ou carinhosamente, Xururuca), um pé de laranja lima plantado nos fundos da casa, perto de um valão que é o mesmo onde ele perfurará o pé com um caco de vidro.

Dono de uma imaginação impressionante, ele cria um mundo neste quintal junto com seu irmão caçula. O valão era o Rio Amazonas; seu quintal, o Velho Oeste; o tronco do pé de laranja lima, seu cavalo, companheiro em muitas aventuras ao lado de seus heróis dos cinemas. Ainda no quintal ele visitava a Europa, o bondinho do Pão de Açúcar e o jardim zoológico onde a galinha preta - que um dia ele acabou comendo na canja - era uma pantera negra e outras duas galinhas eram leoas. Um punhado de árvores mais à frente era a floresta amazônica.

Ele brincava com o pé de laranja lima sozinho. Minguinho "conversava" muito com ele e era companheiro de muitas aventuras.

Zezé tinha um “passarinho” dentro do peito que cantava para ele “para dentro”. Mais tarde seu tio Edmundo explicou que isto era o pensamento que ele estava começando a ter. Após isso ele “liberta” seu passarinho para ajudar outra criança que não tinha pensamento ainda.

O diabo também se faz presente, mas não de forma personificada. As traquinagens do menino são, segundo ele, o diabo soprando idéias em sua cabeça.

Um dos passatempos da molecada era pegar morcego, que consistia em pegar carona não autorizada agarrados aos estepes nos parachoques traseiros dos carros. O carro mais cobiçado era o do português Manoel Valadares: o carro mais lindo do mundo. Aliás, tudo para Zezé é "o mais do mundo": melhor pessoa do mundo, melhor amigo do mundo, maior do mundo, e por aí vai. Porém Seu Manoel era muito bravo e ninguém ousava pegar um morcego no para choques dele. Um dia Zezé se aventurou e tentou pegar o morcego quando Manoel saiu do “Miséria e Fome” (apelido do bar local) e entrou em seu carro.

NÃO LEIA A PARTIR DAQUI SE PRETENDE LER O LIVRO!

Em sua excitação, Zezé se agarra ao estepe do carro do Seu Manoel cedo demais, antes que este ligasse o motor.

Sente apenas seu corpo ser erguido do chão pelas orelhas puxadas pelo dono do carro, que além de tudo, dá uma palmada tão forte no traseiro que o menino sai mancando. Ante o gracejo dos clientes do bar e frente a humilhação que sentira, e ainda sendo desafiado pelo português a lhe xingar, o menino responde que não xinga mas está pensando nos xingamentos e quando crescesse, o mataria.

O ódio e a humilhação do Zezé duraram muitos dias. Após isso, o português sempre que passava pelo menino, buzinava tres vezes e algumas vezes até dava tchauzinho.

O menino alimentava o ódio e não respondia. Até que um dia o menino foi para a escola com o pé enfaixado pelo corte com o caco de vidro e o português o ajudou quando o viu e o levou para a farmácia. Neste dia o menino não foi à aula a ali nasceu um bonita história de amizade.

Em dado momento Zezé faz um pedido comovente para que o Portuga (como ele o chamava) fosse seu pai. O que segue após esses eventos só mesmo lendo o livro.

Logo antes de começar a primeira parte do livro, em um breve agradecimento do autor, ficamos sabendo que sua irmã Glória morre aos 24 anos e que Luís, o rei Luís morre aos 20.







José Mauro de Vasconcelos