26.9.09

O Capote

O Capote
Nicolai Vassilievitch Gogol
Editora L&PM
Coleção L&PM Pocket

Trata-se do volume 202 da coleção L&PM Pocket, que vem seguida, no mesmo volume, de O Retrato. Na última capa vem uma descrição suscinta sobre o autor, mas nenhuma menção sobre de que se trata o conto O Capote, de apenas 42 páginas, logo, eu vo-lo direi:

O conto narra a história de Akaki Akakiévitch Bachmatchkin, conselheiro titular de uma repartição pública de Peterburgo, em um certo ministério. Gogol, ao descrever a relação de Akaki com seu capote, e o que este causa naquele, não deixa de lançar suas críticas ao regime da Rússia, à sociedade e, em especial à Petesburg, onde se ambienta toda a narrativa. O capote, novo e velho, causam na vida do funcionário público dois efeitos distintos, antagônicos.

O velho, motivo de piada para os colegas, o protegeu do frio por muitos invernos e chegara o momento de o aposentar, pois não cumpria mais sua função. O novo, causando admiração e cumprimentos dos colegas, atraía mais a atenção. O velho lançava Akaki na obscuridade, fazendo-o um fantasma, no sentido figurado, entre a multidão. Uma mosca detinha mais a atenção das pessoas que ele. O novo, fizera-o vistoso, passou a ser notado, e o transformou em um funcionário-fantasma (leia o livro), levando a sua ruína. O velho incentivava o desrespeito dos colegas, o novo, a admiração. O velho o levava para casa, deixáva-o concentrado no trabalho, o novo o levava à noitada e retirava sua atenção ao trabalho. Até mesmo a personalidade de Akaki mudara com cada capote.

A linguagem do livro não é chula, por assim dizer, mas existem algum termos coloquiais demais. "Hemorroidal" e "encher a caveira" esta última falando sobre embriagar-se constam no livro, mas o autor resolve que não seria conveniente escrever o nome de uma peça de roupa íntima em letras de forma. Não é um mal livro, mas também não entendo como este conto sobreviveu a 170 anos aproximadamente (escrevo em 2009) de melhores contos que este. Não vejo nada que torne este conto um clássico, a não ser por um grupo de pessoas que determinaram que é clássico porque assim decidiram. Pode-se dizer que o conto não acaba no final. Explico: depois que o conto termina, e muito bem poderia terminar na página 45, ele ainda segue até a página 50 em uma narrativa fantástica, sobre o que ocorre depois. Para entender melhor, leia o livro, ou, se não aguentar de curiosidade, leia o resumo abaixo.

Palavras pouco usuais encontradas no livro (retiradas de http://www.dicio.com.br/, em 26/09/2009):

sibarita - Diz-se de, ou pessoa dada aos prazeres físicos, à voluptuosidade, à indolência (a exemplo dos habitantes de Síbaris, que, muito ricos, tinham fama de voluptuosos e indolentes).
peliça - Peça de vestuário forrada ou guarnecida de peles finas e macias.
marta - Mamífero peludo e esguio, que se parece com a doninha.
samovar - Utensílio russo de uso doméstico, pequena caldeira com tubo central no qual se deitam brasas. Serve para ferver a água destinada à preparação do chá e a outros usos.
esgar - Careta; trejeito na face; contração da fisionomia.
fiacre - Antiga carruagem de aluguel.

Resumo:

O livro começa falando de um funcionário público, Akaki, em um certo ministério. Na verdade começa um pouco antes, contando como sua mãe escolhera este nome, mas vamos partir de um pouco mais além: Akaki Akakiévitch como funcionário público, permanecendo no mesmo cargo, não importando quantas mudanças de diretores e chefes de divisão ocorriam.

Akaki não se importava com ninguém e ninguém se importava com ele, a não ser para zombar do mesmo. Sua aparência não importava nem a si mesmo, sendo comum vê-lo com qualquer porcaria sobre as roupas. Ninguém o tratava com respeito e a função dele era a de fazer cópias de documentos. Só para deixar claro, estamos em 1840 e na Rússia: as cópias eram manuais.

Uma vez algum chefe desejou dar-lhe uma tarefa mais honrosa, mandando que ele apenas trocasse alguns verbos de um documento e alterasse da primeira para a terceira pessoa o discurso, mas esta tarefa pareceua Akaki tão difícil, que ele pediu que o deixassem só com as cópias. Akaki tinha um mundo só para si e para o trabalho e não se relacionava com mais ninguém. Ficava feliz, enquanto outros iriam se divertir, em ir para casa e terminar suas cópias lá, quando seu horário na repartição terminava.

Nunca fora visto em uma festa sequer. Até mesmo a segurança prestava mais atenção ao voar de uma mosca que à passagem dele. Quando do inverno de Petesburg, Akaki chega ao trabalho sentindo um frio demasiado, principalmente nas costas. Observa, então, que seu casaco está puído e, entre os muitos remendos, precisaria de outros tantos. Foi ao encontro de seu alfaiate, que condenou o capote. Precisaria de um novo. Como Akaki não tinha dinheiro, tentou convencer o alfaiate a remendar o velho, mas não conseguiu. Acabou sendo convencido da idéia de um capote novo. Juntando todas as suas economias, parando de jantar, andando nas pontas dos sapatos para economizar a sola, junto com um abono que recebera no trabalho, fez a encomenda ao alfaiate.

Chegou a se distrair no trabalho pensando na nova peliça. Quando ficou pronto, o vestiu bem, e aquecia a contento, ante o inverno rigoroso que se aproximava. Estreou seu capote no trabalho, sendo muito cumprimentado pelos colegas. Estes o forçaram a fazer uma festa em homenagem ao capote novo, mas este se esquivou, dizendo tratar-se do velho reformado. O chefe do setor disse, então, que faria uma festa ele mesmo, em sua casa, e que todos estariam convidados. Akaki acabou aceitando e foi para a festa, onde todos saudaram o colega. Tentou algumas vezes sair da festa, dado o adiantado da hora, mas, como nunca lho deixavam, ele resolveu sair à francesa. Já passava de meia-noite.

Noite agourenta, ele foi tomado de um medo irracional, ante ao deserto das ruas e à escuridão do lugar. Sentindo-se perdido, acabou dando com criminosos, que, em número de três, espancaram-lhe e roubaram-lhe o capote novinho.

Deu parte na polícia, no inspetor e nada adiantava. Já elevava a voz, logo ele, que sempre falava baixo. Buscou ajuda a um funcionário importante, de outra repartição, que intercedesse por ele, mas fora muito mal-tratado. Saindo à rua exasperado, tendo desmaiado na frente daquele funcionário importante, e sentindo o frio do clima de Petesburg, acabou sob os cuidados de um médico, que deu-lhe dois dias de vida devido a uma infecção na garganta.

Muito bem, Akaki acaba morrendo e o conto poderia terminar aqui, mas continua. Akaki vira um fantasma que assombra a todos que passam pelas cercanias da ponte Kalinkine. Não só assombra: rouba a todos que passam com capote, na tentativa de encontrar o seu. O fantasma chegou a quase ser preso pela polícia, mas nunca foi apanhado. Uma vez, aquele funcionário importante que o maltratara, passando de carruagem, foi abordado violentamente pelo fantasma, que rouba-lhe o capote. Após isso, o fantasma nunca mais deu notícias.

Na tradução que eu li, consta o termo "funcionário-fantasma". Será que foi este conto que deu origem ao termo que nós usamos para os funcionários públicos que nunca aparecem nas repartições, mas que sua folha de pagamento acaba indo para o bolso de alguém?